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Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.

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sábado, 28 de novembro de 2015

. . .
Na primavera um Passarinho

Só para mim desata o canto - 
A primavera vai
Quando o verão já vem chegando -
E quando a Rosa está crescida
Vai-se o Pardal.

Mas eu não fico angustiada

Sabendo que meu Passarinho
Noutro lugar
Vai aprender além dos mares
Uma canção nova e bonita
E voltará.

Por mãos mais firmes apoiados

Em melhor solo acomodados 
Estão os meus - 
E embora busquem outro abrigo
Ao dúbio coração eu digo
Eles são teus.

Em mais serena Claridade,

Em áurea luz mais definida
Posso enxergar
Cada receio e cada cisma,
Cada pequena discordância 
se afastar.

E então não fico angustiada,

Sabendo que meu Passarinho
Noutro lugar
Em qualquer árvore pousando
Bela canção aos meus ouvidos
Me trará. 

Emily Dickison.


. . .


quinta-feira, 5 de novembro de 2015


Em um lugar esquecido vivia um pequeno pássaro que todos os dias ao anoitecer cantava uma canção de apenas um verso, apenas uma melodia repetida de uma tristeza atormentada, era uma canção de morte, não havia palavras e de sua entonação já se sentia tarde demais. 
Era um pássaro de mato selvagem, de ervas danosas, de ninho espinhoso. 
Era um lugar abandonado, sempre habitado, mas nunca moradia, era uma gaiola ao céu aberto, uma prisão sem cadeado. Ninguém queria fazer parte daquele lugar, e o pequeno passarinho olhava cândido todas as árvores se esticando devagar mesmo sem sair do lugar, ele se admirava do quanto elas cresciam para todos os lados. E ele se encolhia, apertava suas asinhas para sentir seu frágil corpo, e cantava, como eu queria ao invés de voar, abrir as asas como um ramo de árvore e me estender silenciosamente e devagarinho, como eu queria que minhas plumagens se alongassem aos céus, eu queria tanto ser de um lugar só mas ser tantos lugares em um só. 
Eu queria tanto ser uma árvore com alma de passarinho. 
Tinha medo da sensibilidade do seu corpo, as árvores lhe pareciam tão robustas e imponentes e apesar da sua aparente sequidão externa podia-se observar os delicados detalhes que vem do chão, de uma cor úmida e misteriosa, que faz voar os olhos como mãos. 
E o passarinho mais uma vez encolhido sentia um frio para se expandir mas não sabia como fazer isso, ele sempre teve medo de abrir as suas asas, porque quando ele as  abrisse seria pássaro então. 
Já era um pássaro paisagem, amortecido pelo soturno silêncio, já era aceito de não saber o som do vento dançar as penas. Achava que nem penas tinha, porque o frio era sua pele mais macia.
Mas chegou um dia em que o pequeno pássaro jamais se esqueceria, ele acordou como de costume procurando algum espinho desafinado pelo tempo afim de assobiar. 
Logo lhe calhou uma ideia da qual já não mais sabia, queria ver lá embaixo, queria ver se o chão subia. 
Fazia tempo que ele não sentia o impulso mímico que o olhar lhe movia, parece que seu olho sabia o que é que lhe via. 
E de atento nem se bulia, sem entender o que era aquele passarinho a descansar livre sobre o rasteiro tronco da sua prisão. 
Era um passarinho tão bonito que inquieto se mexia, tinha uma asa sobre o peito e a outra se abria.
E o passarinho cantava em rodopios como se quisesse pegar altura, mas já cansado, pra lá e pra cá se renuncia. 
Pequeno pássaro olhava tudo aquilo como quem nascia, e já não sabia cantar o que sempre ouvia, já então sabia que sua canção era de aplanar e inquieto reverenciava o vento como quem quer pedir para descer suave. 
O passarinho bonito aquietou-se para olhar o que seria essa transmissão de cantos, cada um no seu canto conhecia a linguagem secreta que ali havia. 
Sem perceber, pequeno pássaro aprendeu os passos que no olhar cabia, e sentia que quando pássaro bonito lhe olhava é como se as asas lhe abria. 
E foi assim que olhou também em uma das asas do pássaro bonito, que havia apertando o peito um bico bem por dentro, que vez ou outra beliscava e sem piedade lhe rodopiava e o olhar lhe afastava.
Era dois em um só, um pássaro dentro de um pássaro. E entendeu, que pássaro bonito só poderia voar quando o pássaro de dentro libertasse a outra asa. 
E os dois se viam, pássaro bonito levava o medo de sentir alturas enquanto pequeno pássaro levava o medo de mergulhar para o chão.
Mas os dois não sabiam se chegar a hora um dia iria em que no mesmo ar se encontrariam.

sábado, 26 de setembro de 2015


Imagine um pequeno ser que fica combatendo algo invisível e que foge dentro do próprio cérebro para não adormecer no silêncio, imagine um pequeno ser que não quer ter sono. Quando escurece a dor desse ser é tão exposta que dormir e enfrentar a escuridão da noite se torna perturbador e tão compressivamente triste que a luta se transforma em se manter mais uma vez desperto. E tudo o que esse ser sabe de si mesmo é que ele está lutando contra uma metáfora de não querer adormecer. Tudo que sabe de si é que quer abrir os olhos, é que está frio demais nesse coração caverna e tudo treme internamente como se fosse desabar enquanto por fora a rigidez das pedras mostram a estase do tempo. Quando se está muito tempo nas profundezas de uma caverna você tende a ficar cego. 

Quando você está encoberto por um sombra, o tempo a torna cada vez mais densa, até que você acaba por se tornar inteiramente sombra, encolhida em um lugar onde a luz do Sol não a pode refletir, você passa a não existir para si mesmo, é o Sol que te faz existir, e febrilmente você irá guerrear para sentir aquele calor te dar forma mais uma vez, mas até a luz do Sol tem o tempo exato para viajar e abraçar outros horizontes. A luz não mais te impressiona, seus olhos não mais a reconhecem por mais que tudo dentro de você a compreende fisiologicamente. Você passa a absurdamente querer ouvir a luz, sim, você quer ouvir a luz chegar, como um choque elétrico diante dos seus olhos.

Na escuridão só uma coisa evidência os sentidos mais amortizados, o que te faz sair para fora de si não pode ser qualquer som, tem sons que fazem os seus ouvidos caminharem nas ondas e tem sons que fazem os ouvidos se taparem e apressarem o passo a se esconder do perigo.  O que te faz sair é tão somente a doce sutileza das ondas sonoras, uma tal voz que não se ouve com frequência, uma voz como uma canção que você imerso na escuridão de pensamentos tão turbulentos a ouve em eco suave.  Um estalo elétrico acontece magicamente dentro de sua mente, é o que te faz querer olhar de onde veio aquele som tão doce, você começa a querer escutá-lo mais de perto, você quer então poder ver o que está transmitindo-o. Quando você sente, está longe, bem longe de onde esteve, e você percebe que a sua guerra não é a  de não querer adormecer e sim de querer ardentemente acordar.  

 Você quer alcançar aquele som de qualquer maneira e esse movimento faz abalar as suas estruturas internas e tudo se encaixa no seu devido lugar e o seu encolhimento se transforma em explosão que causará um pequeno orifício no nada, e era o que faltava para a luz atingir as suas entranhas sombrias.

 Lá no fundo da escuridão é possível ver uma imagem que se tornou tão desconhecida, você não reconhece mais o que é você mesmo, leva um tempo para luz chegar novamente ao mundo gelado dos seus olhos. 

Não é um barulho qualquer que te faz sair da escuridão, não são multidões de palavras ao vento e tampouco terremotos de olhos que te farão correr para um lugar que você ainda não está forjado para encontrar. Você está como uma brecha de um circuito esperando o condutor que se encaixe na sua corrente elétrica estática. 

 Quando se mora em uma caverna não são os olhos o sensor mais forte, o sensível se torna a audição, e só o que pode te salvar é uma gota d'água, uma simples gota d'água que ao cair no chão silencioso de uma caverna é como um estalo na alma, e daquela gota se faz uma concavidade e dessa concavidade aquosa é que tão logo algum orifício trará a luz do Sol novamente. Um simples gotejar faz a alma juntar harmonias solares. 

terça-feira, 22 de setembro de 2015




tem uma lâmina nos meus olhos

só vejo em cortes profundos

tenho um olhar que rasga a realidade

só vejo rasgos em um tecido finíssimo

tenho a visão de brechas 

de passagem para outro universo

só enxergo o que não tem espaço

eu te olho como quem olha um céu escuro

como se visse um véu tênue de seda transparente

um olhar que corta o próprio corpo só para olhar de verdade

tem uma lâmina nos meus olhos 

que quer fender o tempo.


segunda-feira, 20 de julho de 2015



Hoje eu segurei esse papel 
como um pintor antes de pincelar
o seu quadro
Hoje eu segurei esse papel 
como um desenho
antes de ser traçado
Estava olhando para o seu silêncio
pálido
e vi
que eu estava segurando esse tempo todo
a minha própria pele
hoje são os meus olhos que me escrevem
minha pele é só um abismo branco
esperando por tinta. 

quinta-feira, 9 de julho de 2015


Eu olho para esse espelho como quem procura algo que sabia onde estava mas não consegue se lembrar. Sinto-me como se estivesse presa em um reflexo e não encontro em todos os caminhos que olho de onde vem a matriz da luz que me tornou em forma. É como se eu olhasse para mim sem saber quem sou, como se eu contemplasse apenas uma sombra, uma distorção existente sem sincronia, todas as partes de mim estão desencontradas, e dos desencontros nascem labirintos. Tudo que vejo na frente desse espelho são labirintos. Quando olho, não vejo apenas uma imagem, enxergo bifurcações dentro de bifurcações, e tudo se torna em ramos e galhos tão abundantes que chego a senti-los em minha carne, tão penetrantes, tão profusos. 
Eu olho para esse espelho como quem olha para algo que não está olhando, algo que você olha mas seu cérebro está amortizado em demasia e tudo que você consegue sentir são os seus olhos parados no tempo olhando para uma coisa que você não quer ver mas que se torna um ponto para paralisar seus olhos por um instante. Como um obstáculo para silenciar a visão.
Eu queria que o espelho tocasse uma canção pois minha expressão é muda. Uma melodia que o rachasse por inteiro para eu sair por fim dos seus cacos e ser pedaços por inteiro. Até a luz é feita de partículas, mundos minúsculos que formam um ser único. Para ser inteiro é preciso também ser pedaços. 
Eu olho para esse espelho e a imagem parece tão distante que quase se assemelha a uma ponto, vejo ela solitária e pontilhada, como pequenos pixels, sim, pequenos pixels amontoados que mostram sua resolução. Até os pixels estão afastados. É tudo lonjuras, e nada parece-me real.
Esse espelho é só a minha  alma olhando para minha carne.
De continuo observo esse espelho e ritualmente o observarei, porque só escrevo quando olho, e só olho porque reflete, a escrita é o meu único reflexo. 
Eu olho para esse espelho porque sempre tenho o que olhar, ainda que distante, as coisas mais internas são aquelas observadas de um cantinho, escondido e quase invisível, como um amor platônico. Sim, eu me olho com um olhar platônico. Como alguém que observa secretamente um ser amado sem nunca ser descoberto. 
Eu olho como quem está ternamente sendo olhado. Eu olho para que esses meus olhos pelo menos me amem. E mesmo se não me amarem, eu olho, pelo simples arfar de ser olhado.