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Voluntariamente autista, sociável com trouxas, fluência em melancolicês. Não tem dom de se expressar pela fonética, mas ama a escrita mesmo sem saber juntar a multidão de letras que seguem suas células. Apenas uma alma muda na imensidão de vozes.

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sexta-feira, 11 de julho de 2014


Eu olho para Órion e de onde virá o meu socorro. O teu escudo, grande caçador, está sobre mim. É como se Órion dançasse uma melodia hipnótica sobre meus olhos e  seu escudo se tornasse uma grande flecha de cor azul quente apontada para mim. Hoje tu está como um caçador de sonhos querido Órion que brilha em resposta ao espelho refletor de meus olhos. E eu com minha voz lenta e pequena converso com tu Órion que não encontro nesta existência uma alma que olhe na minha direção como agora olho para ti e que caminhasse comigo nesse labirinto de sonhos que transbordam água doce que vem de uma pequena nascente feita de água, medo e aspecto galáctico, meus olhos. Minhas águas precisam ser tocadas por mãos leves e não apenas pelo vento.
Mas Órion, só o que vejo é uma constelação de sonhos caída aos meus pés, que eu tento montá-la feito quebra-cabeça, olhando para o céu e tentando lembrar na profundeza de minha alma onde cada peça estava outrora. Só enxergo as peças deste quebra-cabeça porque há brilho. Um brilho metálico e concreto e imutável no espaço-tempo. O brilho de um aglomerado de sonhos que a luz vai além da massa que ainda não conheço as composições de seu interior. Mas é a sua luz que me faz enxergar o caminho de anos a fio a esperar chegar a sua superfície e eu virar o mesmo material daquele brilho. 
Eu olho para Órion e de onde virá o meu socorro. Queria que tu, grande caçador, defendesse os meus sonhos do grande exército que vem ao meu encontro. Me empresta o teu fogo azul. Conversa comigo sobre táticas de guerra. Me sinto uma aprendiz ao teu lado ensaiando como usar um escudo maior que meu corpo miúdo e amorfo, essa é uma das visões mais inefáveis que meus olhos um dia puderam imaginar. Me ensina a ser como tu vencedor dos céus, que mostra o teu brilho mas nunca a sua posição, pois com a distância tu intimidas um exército sem sair do teu tempo e lugar.  E só a tua luz derruba em esplendor aqueles que almejam te alcançar. E eu estou derrubada por que não é o domínio que me aproxima de ti, mas sim a admiração. 
Talvez eu seja como aqueles soldados com uma flechada atravessando o peito, mas ainda assim se mantém de pé lutando até o fim. 
Grande Órion, que um dia possamos duelar com espadas que não existam neste planeta. Não um duelo mortal, mas um duelo de irmandade. Um duelo feito apenas para gerar uma melodia do som de espadas que nunca perfuram, mas que criam de sua melodia uma chuva de faíscas azuis e bondosas. 
E como um sábio guerreiro que a força vai além dos braços e dispensa armaduras, a luz de Órion me alcança em meio a sussurros e suspiros de sereno e recita para minha alma em movimentos leves, "Keep your secrets with you girl, safe from the outside world." 
E eu guardarei meus sonhos em segredo, Órion. "Safe from the outside world." 
Essa minha pequena voz queria fazer uma ode a ti, grande caçador, mas tudo que consigo expressar são orações silenciosas, pedidos de socorro e proteção. 
Mas as melhores odes são feitas de olhos. 


quarta-feira, 2 de julho de 2014


Mais uma vez estou ancorada neste oceano dentro de um barquinho digno do diminutivo, só vejo água acima dos meus olhos e a beira dos meus pés. Águas que não sabem o silêncio em sua superfície. As ondas feitas ora de nuvens ora de águas conversam de alguma forma com a minha existência. De alguma forma essa abundância aquosa e condensada quer falar comigo. De alguma forma ela quer ter braços quer tocar a superfície. 
Estou tentando pescar alguma coisa, mas às vezes a composição de água presente no meu corpo mergulha-me neste oceano. E eu sou mais água que ossos. Mais vidro que cálcio. Ao longe vejo um anzol estático carregando iscas de letras. Mas como saber se estas letras são da palavra que a tanto tempo ando esperando fisgar minhas entranhas. Eu deixaria o anzol me abrir como um espaçamento na terra em que se deseja repousar umas sementes. Seriam essas letras as sementes apropriadas para o meu tipo de solo. Eu nado para longe do anzol como um filme voltando ao início. E no início é só água, só água. 
Nas profundezas, algo dentro de mim canta uma melodia das baleias e tento chegar a superfície para expelir minha alma em forma de jatos d'água. 
Então vejo um barco solitário brincando com o vento e já estou mais uma vez nele, tremendo o anzol como se fosse um cajado que fendesse luz em águas. 
E como se existisse uma inversão da gravidade estou de cabeça para baixo e andando em águas negras e não menos profundas. Neste lugar eu sou mais poeira do que viscosidade. Sou um ponto gélido circulando um planeta. 
E são as mesmas coisas efêmeras. Efêmero me lembra enfermo. Enfermos temporários da não eternidade. Enfermos temporários do antes do fim. Eu não tenho voz aqui. Minha forma de falar se resume a círculos. E sou atraída por uma gravidade que não me desprende no espaço. Eu falo em círculos. 
Talvez esse tempo todo eu queria pescar uma música que eu só conheço na profundidade. Talvez essas palavras em forma de iscas formam uma oração ou um pedido de socorro.
Mas eu estou novamente neste barco, estou nesta superfície que não conhece outro movimento que não seja balanço. Sinto um tênue sereno cair sobre meus ossos frágeis. Abro os olhos e a cadeira de balanço me recorda onde estou e levo nas mãos uma bengala e já é hora de entrar e acender as luzes da sala de estar. Meus olhos vêem essa luz em penumbra e eu lembro que tudo foi um sonho e de novo estou neste barco. 
Me disseram um dia que era poesia, 
mas eu só vejo águas.
As letras escorrem gotas d'água que já são pesadas neste meu papel frágil e já me rasgo com facilidade.